Às
vezes os momentos de sofrimento nos fazem entender coisas que não entenderíamos
se assim não fosse. Não estou aqui pregando a “teologia do sofrer”, ou algo
parecido, restou apenas afirmando que o sofrimento nos dá a condição de avaliar
melhor aquilo que o outro sente.
Ao
mesmo tempo, porque o homem não gosta de sofrer, o sofrimento nos faz com que
deseje os benefícios da saúde, que muitas vezes quem tem não dá o merecido
valor; bem como o acréscimo da idade, com as vantagens proporcionadas pelo
aumento da experiência (e a proximidade do passamento), leva o homem a olhar
para traz e ver aqueles que já se foram (muitas vezes em meio ao sofrimento). Um
sofrimento que muitas vezes não percebemos, ou achávamos que era exageradamente
dimensionado, como forma de chamar atenção.
Poderia
falar de minha mãe, que morreu com enfisema, e de seu sofrimento, que nós mal notávamos,
já que pensávamos serem pequenas solércias como forma de chamar para si toda
atenção. Hoje sinto em mim mesmo os males por que passou e sei que não eram
artifícios, mas uma rude realidade de sofrimento cotidiano.
Mas,
sobre ela deixarei para outra oportunidade. Hoje quero lembrar-me de um amigo que
deixou muitas saudades. Homem íntegro e extremamente inteligente possuía um
ótimo caráter. Mesmo não tendo grandes recursos financeiros, possuía vastos
recursos filosóficos e intelectuais. Tinha grande amor pelas letras e pelos
livros, mas não possuía apego por eles.
Claro
que já não preciso dizer de minha enorme admiração por ele.
Este
homem, por uma grande ironia, contraiu o vírus da AIDS em sua primeira relação
sexual, após vinte anos sem nenhum tipo de envolvimento com outra pessoa.
Sei
que muitos julgarão, outros teorizarão os eventos que envolveram a fatalidade e
a vida do Hamilton, porém eu, de minha parte, hoje apenas quero lembrar-me de um
episódio em uma das vezes que fui à sua casa para receber de seu vasto conhecimento.
Naquele
dia me lembro dele dizendo que quando chegasse ao céu, estaria com a “bola da
sua vida” debaixo do braço e, que faria questão de, entregando-a de volta para
Jesus, lhe dizer:
“Não gostei de jogar esse jogo. Estou devolvendo
essa bola furada. Toma que a bola é sua!”.
Sei
que para alguns pode soar como blasfêmia ou, no mínimo, total falta de
respeito. Entretanto devo lembra-los que ele não era aquilo que poderíamos ter
como “religioso”. Talvez ele fosse, quando muito, um nominal.
E é,
exatamente por esse fato que devemos tentar não julgar suas atitudes, ou
palavras lançadas em momento de extrema revolta; ainda mais, porque além do
HIV, ele também era portador do “mal de Parkinson” de DPOC (com o agravante que
não parava de fumar - um amigo em comum me contou que, já no final, ele estava
permanentemente ligado ao O2, mas volta e meia ele desligava o aparelho para
poder fumar).
Lembro-me
de sua enorme simplicidade para descomplicar pensamentos complexos. De sua
tolerância para tratar determinadas conversas irritante. Seu enorme equilíbrio para
os assuntos recheados de preconceitos.
Ainda
hoje tenho grande admiração por ele. Posso afirmar, com a mais absoluta certeza,
que não compactuo com todos seus pontos de vista. E muito menos sobre sua visão
do Divino e do etéreo.
Mas
confesso que andei ao seu lado para, quem sabe, aprender com ele. Quem dera
pudesse ter aprendido com sua intelectualidade, com seu caráter, com sua imensa
humildade, com suas palavras de equilíbrio...
Mas,
devo reconhecer que não consegui aprender totalmente a lição que seria mais
importante; a lição de persistência e
coragem.
E,
hoje, pensando nele, percebo que ele era muito melhor do que eu, pois precisou
de três doenças temíveis para que ele “desistisse do jogo da vida”, sem nunca
abandonar a enorme vontade de viver a
vida.
Eu,
ao contrário, creio na finalidade do jogo da vida e agradeço a Jesus por ter
permitido que eu o jogasse, mas em contrapartida...
Faço
minha as palavra do Apóstolo quando diz: “porque
para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21).
A verdade é que dia após dia minhas forças vêm se esgotando,
e a vontade de continuar vem diminuindo.
A verdade é que a saúde vem se deteriorando
(e cada dia mais), a vida, vagarosamente, se esvaído, escorrendo pelos dedos,
sem que eu possa fazer nada, sem que eu tenha forças para deter esse processo e
sem que eu veja luz no fim do túnel. A verdade é que eu sei que a “vela” da
minha existência está se apagando, mas me pergunto: porque tem que ser tão
lento?
Se
por um lado sou grato a Deus por permitir ter a vida que tenho, e por saber que
ainda existe um plano dEle em minha vida, por outro lado o desgaste e a
impotência me tiram toda vontade de existir.

