segunda-feira, 31 de março de 2014

DESABAFO!

Às vezes os momentos de sofrimento nos fazem entender coisas que não entenderíamos se assim não fosse. Não estou aqui pregando a “teologia do sofrer”, ou algo parecido, restou apenas afirmando que o sofrimento nos dá a condição de avaliar melhor aquilo que o outro sente.

Ao mesmo tempo, porque o homem não gosta de sofrer, o sofrimento nos faz com que deseje os benefícios da saúde, que muitas vezes quem tem não dá o merecido valor; bem como o acréscimo da idade, com as vantagens proporcionadas pelo aumento da experiência (e a proximidade do passamento), leva o homem a olhar para traz e ver aqueles que já se foram (muitas vezes em meio ao sofrimento). Um sofrimento que muitas vezes não percebemos, ou achávamos que era exageradamente dimensionado, como forma de chamar atenção.

Poderia falar de minha mãe, que morreu com enfisema, e de seu sofrimento, que nós mal notávamos, já que pensávamos serem pequenas solércias como forma de chamar para si toda atenção. Hoje sinto em mim mesmo os males por que passou e sei que não eram artifícios, mas uma rude realidade de sofrimento cotidiano.  

Mas, sobre ela deixarei para outra oportunidade. Hoje quero lembrar-me de um amigo que deixou muitas saudades. Homem íntegro e extremamente inteligente possuía um ótimo caráter. Mesmo não tendo grandes recursos financeiros, possuía vastos recursos filosóficos e intelectuais. Tinha grande amor pelas letras e pelos livros, mas não possuía apego por eles.
Claro que já não preciso dizer de minha enorme admiração por ele.

Este homem, por uma grande ironia, contraiu o vírus da AIDS em sua primeira relação sexual, após vinte anos sem nenhum tipo de envolvimento com outra pessoa.

Sei que muitos julgarão, outros teorizarão os eventos que envolveram a fatalidade e a vida do Hamilton, porém eu, de minha parte, hoje apenas quero lembrar-me de um episódio em uma das vezes que fui à sua casa para receber de seu vasto conhecimento.

Naquele dia me lembro dele dizendo que quando chegasse ao céu, estaria com a “bola da sua vida” debaixo do braço e, que faria questão de, entregando-a de volta para Jesus, lhe dizer: 

“Não gostei de jogar esse jogo. Estou devolvendo essa bola furada. Toma que a bola é sua!”.

Sei que para alguns pode soar como blasfêmia ou, no mínimo, total falta de respeito. Entretanto devo lembra-los que ele não era aquilo que poderíamos ter como “religioso”. Talvez ele fosse, quando muito, um nominal.

E é, exatamente por esse fato que devemos tentar não julgar suas atitudes, ou palavras lançadas em momento de extrema revolta; ainda mais, porque além do HIV, ele também era portador do “mal de Parkinson” de DPOC (com o agravante que não parava de fumar - um amigo em comum me contou que, já no final, ele estava permanentemente ligado ao O2, mas volta e meia ele desligava o aparelho para poder fumar).

Lembro-me de sua enorme simplicidade para descomplicar pensamentos complexos. De sua tolerância para tratar determinadas conversas irritante. Seu enorme equilíbrio para os assuntos recheados de preconceitos.

Ainda hoje tenho grande admiração por ele. Posso afirmar, com a mais absoluta certeza, que não compactuo com todos seus pontos de vista. E muito menos sobre sua visão do Divino e do etéreo.

Mas confesso que andei ao seu lado para, quem sabe, aprender com ele. Quem dera pudesse ter aprendido com sua intelectualidade, com seu caráter, com sua imensa humildade, com suas palavras de equilíbrio...

Mas, devo reconhecer que não consegui aprender totalmente a lição que seria mais importante; a lição de persistência e coragem.

E, hoje, pensando nele, percebo que ele era muito melhor do que eu, pois precisou de três doenças temíveis para que ele “desistisse do jogo da vida”, sem nunca abandonar a enorme vontade de viver a vida.

Eu, ao contrário, creio na finalidade do jogo da vida e agradeço a Jesus por ter permitido que eu o jogasse, mas em contrapartida...

Faço minha as palavra do Apóstolo quando diz: “porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21).

A verdade é que dia após dia minhas forças vêm se esgotando, e a vontade de continuar vem diminuindo.

A verdade é que a saúde vem se deteriorando (e cada dia mais), a vida, vagarosamente, se esvaído, escorrendo pelos dedos, sem que eu possa fazer nada, sem que eu tenha forças para deter esse processo e sem que eu veja luz no fim do túnel. A verdade é que eu sei que a “vela” da minha existência está se apagando, mas me pergunto: porque tem que ser tão lento?

Se por um lado sou grato a Deus por permitir ter a vida que tenho, e por saber que ainda existe um plano dEle em minha vida, por outro lado o desgaste e a impotência me tiram toda vontade de existir.
E assim vou caminhando em meus dias, no mais absoluto antagonismo pessoal, andando entre a depressão e a fé, entre a vontade e a capacidade, entre a ilusão e a realidade. ENTRE O SONHO E A VIDA.  (JL. Guerrero)


















domingo, 30 de março de 2014

INICIAL

Sempre tive o desejo de escrever um diário, ou qualquer coisa do gênero. Mas, não sou disciplinado o suficiente para ter o compromisso de escrever diariamente. Apesar que escrever, muitas vezes, é a única maneira de me acalmar, pois coloco no papel todas minhas ânsias, desilusões, frustrações e, assim exorcizo a maioria todos meus fantasmas; ainda assim, não tenho a disciplina necessária para o escrever diário sobre meus dias, até porque os acho muito monótonos e insossos.

Mas, o desejo de escrever com respeito aos meus dias de enfisemado tem sido constante. Já tive uma breve experiência a esse respeito que não deu certo, então decidi que, ao invés de ser diário, vou torná-lo uma crônica sem obrigatoriedade de escrever diariamente, mas escrever sobre aspectos mais relevantes, ou momentos mais incômodos.

Sei que haverão muitas mudanças de humor, até porque isso é uma constante em mim. E existirão momentos que parecerei tocar o céu, para no momento seguinte estar a beira do inferno. Em meus dias é comum viver o dia de enorme euforia, e no outro total depressão.

Vocês verão! Vocês acompanharão! Isso é: se alguém se der o trabalho de ler. 

Até o próximo momento.

JL.Guerrero